terça-feira, 25 de janeiro de 2011

SAMPA

por Alessandra Martins Rosa

fotos extraídas de http://www.flickr.com/photos/renatopborges/
Bucólica noite ensolarada
sol em estado terminal, descendo descendo
paisagem suave e decadente
montanhas sendo fendidas por trens velozes
ir e vir de pernas, olhos perseguindo lembranças
céu azul, doce e violento
vento morno qual beijo delicado
vento morno qual vontade reprimida, brasa camuflada
desejo de dissecar voluptuosamente o mistério destes lábios
um movimento sóbrio conduz ao dia, à noite, aos acontecimentos programados
as vozes controladas, entrecortadas por respiração, por pensamentos, pela observação
pela primeira vez hoje, as 19hs abro os olhos e vejo um mundo irrequieto, senil, alegre, volátil, delirando aquém dos meus sentidos, movimentos, razões, paisagem belíssima árvore colada no céu, no asfalto, nas sombras humanas indo e vindo
quadro pleno de delicadeza, ódio, urgência
ou simplesmente, um quadro frenético além da natureza humana
 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

BUENOS AIRES: KRAKOW, COCOLICHE E AMERIKA

Lanchinho pré balada, clube underground, nota de peso falsa e balada open bar: tudo o que rolou na minha primeira noite na capital portenha

Cheguei no Aeroporto Jorge Newbery (AEP) por volta de 22h. Depois de ser deixado no hotel por um taxista que se referia a Cristina Kitchiner como "la putana", fui comer um lanche no Krakow que fica na rua do hotel onde estou hospedado. O bar é bacana, possui diversos tipos de cervejas, drinks exóticos, bons lanches e bom preço: com pouco mais de $ 60,00 (sessenta pesos), duas pessoas podem comer um bom lanche ou porção e beber boa cerveja. O clima é amistoso, público variado, há pessoas jogando nas mesas e vez ou outra ouve-se o barulho de blocos do Jenga caindo no chão. Eu incluiria o Krakow no meu roteiro das próximas noites se lá tivesse garçons mais simpáticos e um cuidado maior com a música (a trilha sonora é executada pelo barman, no winamp de num netbook).

Krakow: para comer, beber e jogar
Depois o destino foi o Cocoliche, um lugar pequeno e underground num prédio da década de 1920 no bairro de San Telmo. Por $ 50,00 adentrei o clube que fica num prédio deteriorado, pichado e com teias de aranha nos cantos do banheiro. Lugar para quem sabe diferenciar techno de  house. Estava vazio. Já devia ser mais de 3 da matina quando saí de lá e fui para o último programa para encerrar meu primeiro dia na Big Apple latina (ok, essa comparação com Nova York nunca convenceu ninguém).

"Lá pode tudo". Foi assim que um amigo definiu o clube Amerika. Mas o que será que ele quis dizer com "pode tudo"? Localizado no bairro Almagro em Buenos Aires o Amerika é uma das baladas gay mais tradicionais da cidade. Foi lá que tomei conhecimento de ter recebido minha primeira nota falsa de peso: logo na entrada do clube, o rapaz do caixa recusou uma nota de $ 20,00 alegando ser falsa (e era de fato, recebi de um taxista "simpático" sem perceber).

No Amerika, a noite de sexta para sábado, custa $ 70,00 e o bar funciona no esquema "canilla libre", ideal para quem gosta de beber à  vontade sem preocupar-se com comanda, embora lá pelas 5 da manhã já se tem dificuldade de encontrar cerveja (dizem que a festa não acaba antes das 7). A cerveja, aliás, distribuída em copos descartáveis, foi minha única bebida da noite (optei por não me aventurar em outros drinks).

Eu costumo dizer que a música define o lugar e no Amerika não é diferente. O clube toca latin house (mas esqueça a sofisticação da turma da Cadenza Records). O som é uma espécie de lambada eletrônica e pode rolar até mesmo Ivete Sangalo ou Xuxa - esta, em espanhol, claro.

Imagine pessoas que cantam e dançam felizes, saltitantes. Pode ser bailando sozinhas, mas também casais improvisando passos (eu devia ser adolescente quando fui na útlima balada em que as pessoas dançavam em par). E se no Amerika pode tudo, pode homem dançando com mulher, homem com homem, mulher com mulher, travesti com ambos e todas as demais combinações possíveis são aceitas. E a coisa toda se dá de verdade na  pista principal que conta com palco e shows de drags. Tem uma pistinha no piso de cima tocando house, variando tech e progressive em meio ao set de tribal. As demais áreas da casa, como aquela onde pode tudo mesmo, nem fui.

¡Hola! ¿Qué Tal? Yo soy La Barbi!
E o Amerika é isso: pessoas passando do ponto e perdendo a elegância (é open bar, lembra?), mas dançando como se não houvesse amanhã, cantando junto, rebolando e sendo felizes. Não devo voltar lá, mas era necessário conhecer o clube. É a diversidade dentro da diversidade, um lugar para cantar e dançar sem ter vergonha, sem medo de ser feliz. Um lugar 100% jogação e 0% carão.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

D-EDGE RELOADED

Um dos principais clubes de música eletrônica do país sofre upgrade e ganha novos ambientes

Já faz alguns anos quando li a primeira notícia de que o D-Edge iria sofrer uma expansão e assim abrigar um público maior que a capacidade de 400 pessoas. Apesar de pequeno, isso não era um problema: o clube comumente figura na lista dos melhores do mundo em publicações especializadas internacionais. O espetacular line-up composto pelos melhores e mais conceituados DJs do Brasil e exterior, em conjunto com o projeto cenográfico de Muti Randolph tornaram o D-Edge um clube de respeito.

Mas Renato Ratier, DJ e proprietário da casa, decidiu que sairia da zona de conforto e resolveu encarar uma ampliação do espaço físico do clube. Depois de imprevistos com a compra do prédio vizinho e questões estruturais do terreno, eis que em 2010, seis anos após a primeira notícia de que o clube seria ampliado, o dia 26 de Novembro de 2010 chegou. Esta foi a data da inauguração do D-Edge 2.0 com a noite Freak Chic.

Foram escalados Luiz Pareto, Davis, Márcio Vermelho, Márcio Careca, Ad Ferrera, Houssein Jarouche além de Ratier. O alemão Henrik Schwarz foi o convidado internacional.

Cheguei cedo, um pouco antes de 1h da manhã, porque imaginei que estaria muito cheio e com fila. E sim, havia uma fila que além de grande... não andava. Eu já estava quase desistindo, quando uma hora e meia depois, me deparei com a fachada do novo D-Edge: um enorme e imponente cubo metálico, com um recorte de janela que vazava luzes de laser. Uma cerveja para relaxar e a espera brochante foi apaziguada.

Entrei às 3h da manhã.

Na entrada, um corredor largo com caixas em forma de cubos brancos onde peguei  a comanda de consumo.

Por onde começar? Subi dois ou três lances de escadas.

- Espere um momento, por favor, está muito cheio aqui, informou o segurança.

Depois de ter ficado duas horas na fila, definitivamente não queria ouvir a palavra espera. Desci. Entrei na nova pista. E aquele momento dividiu a noite em "antes e depois". Filetes simétricos de luz atravessam todas as paredes, chão e teto. As cores são vibrantes, intensas. O azul e vermelho sólidos, se destacam, mas há inúmeras variações e misturas. Na parede da direita, uma vidraça dá vista para o Memorial da América Latina. O sistema de som é tudo que se espera: forte, equilibrado, afaga os ouvidos. Até no banheiro escuro e apertado deste piso, há caixas acústicas sobre os mictórios.

Foto Divulgação

Foto Divulgação
Estava bastante empolgado com a novidade quando vi Ratier passando pela pista e perguntei onde Henrik Schwarz ia tocar.

- Na outra pista.

Chegando na pista antiga, aquela cena pareceu bastante retrô: as luzes que outrora eram modernas e vanguardistas, pareciam pálidas e oitentistas. Mas a culpa é da nova pista forrada de leds vigorosos que formam um conjunto vivaz.

O gringo estava tocando um tech house tingido de influência jazzy tão poderoso que naquele momento ficou claro que o que torna aquela pista especial é a junção dos três elementos: tecnologia, cenografia e música. E isso continua funcionando muito bem.

Depois do set de Schwarz, fui conhecer o terraço que é também a área de fumantes. Fica no último piso e é possível subir de elevador. É uma área grande e quando subimos as escadas, o reflexo dos espelhos se confundem com o céu aberto. Há sofás em toda extensão da parede do lado esquerdo. À direita, há uma parede de vidro transparente de pouco mais de um metro de altura onde não é permitido apoiar-se (os seguranças se encarregam de ficar de olho). Isso pareceu bastante ruim, pois dá uma idéia de que aquilo não é seguro. A vista é para o Memorial  da América Latina.  No fundo do terraço, há um banheiro feito dentro de uma caixa d’água de metal.

Saí de lá quase 8h da manhã e a festa não parecia ter hora para acabar. Espero que as próximas noites repitam o sucesso do Opening D-Edge 2.0. Semana que vem, estarei lá novamente.

O QUE MUDA:

- A entrada principal fica na na Av. Auro Soares de Moura Andrade, 141, na esquina da Al. Olga (a antiga entrada).
- Na saída, é possível pagar a comanda tanto nos caixas antigos quanto nos novos.
- A capacidade de público, no mínimo, dobrou (não foi divulgado o número oficial).
- É possível isolar ambientes para projetos distintos.

O QUE NÃO MUDA:

- O preço das bebidas (pelo menos foi o que me pareceu).
- As noites permanecem nos mesmos dias da semana.
- O banheiro da pista antiga continua unissex (tinha ouvido dizer que não haveria mais isso).
- O esquema “coloque o nome na lista” e receba um descontinho permanece.

-------------------------------------------------------- atualização do post

O QUE PODE MELHORAR:

- A parede de vidro do terraço precisa receber um reforço ou ser substituída
- Em noites de grande movimento, a entrada precisa ser agilizada. Ouvi relatos de pessoas no Facebook que ficaram duas horas na fila e não conseguiram entrar.
- A escada entre as duas pistas é bastante estreita.
- Colocar um cardápio de bebidas no bar da nova pista

O MELHOR FOI:

- A iluminação da nova pista. Aquilo é psicodélico.
- O terraço. Imagino que os fumantes se sentiram as pessoas mais felizes do mundo com aquele enorme espaço (antes era um cercadinho minúsculo na entrada do clube). Mesmo eu que não fumo, me senti muito bem ali.
- A música precisa falar?

O PÚBLICO:

- Gay friendly (isso é específico da sexta-feira).
- Patys de vestido curto e salto (bem) alto.
- Nerds de música eletrônica

 LINKS

Site do clube
http://www.d-edge.com.br/

Entrevista com Renato Ratier para o portal Skol Beats
http://www.youtube.com/watch?v=EKJSIJCye6k


Henrik Schwarz no Portal Skol Beats (entrevista e vídeos da festa de inauguração do D-Edge 2.0)
http://www.youtube.com/watch?v=dgQ7RKb6rA4
http://www.youtube.com/watch?v=R06uYcPMJlg
http://www.youtube.com/watch?v=rm3BQ-GeZ34

+ Fotos
http://www.facebook.com/dedgeclub

quarta-feira, 21 de julho de 2010

SÃO PAULO, A CIDADE DA FILA

Sexta-feira, 16 de Julho. Apesar do frio, resolvemos ir no relançamento do UltraLounge no Lions. Para quem tem menos de 30 anos, talvez não saiba mas o Ultralounge foi um clube nos Jardins que fez sucesso no início dos anos 2000. Chegamos por volta de 1h da manhã, estacionamos e para pegar o comprovante, tinha uma fila no valet. Depois, a fila para entrar, dobrava o quarteirão e tinha dezenas e dezenas de pessoas. Ficamos na fila por cerca de uma hora e meia. Desistimos. A noite acabou cedo.


Sábado, 17 de Julho. Fui com um amigo no Lar Center e aproveitamos para almoçar no Viena, que é um restaurante self-service que gosto bastante apesar do cardápio ser o mesmo há muito tempo. Chegando lá, fila.

Sábado, 17 de Julho. Com o friozinho que estava fazendo, pedir uma pizza foi uma boa opção. Nem tínhamos pressa porque estávamos em casa, esperando confortavelmente. Mas surpreendetemente, chegou bem rápido. Depois de uma garrafa de vinho, a noite já não estava tão fria e decidimos sair para comer a sobremesa em algum lugar. Fomos no Ritz. "Meia hora de espera para liberar uma mesa ou balcão". "Obrigado, vamos em outro lugar". Fomos no Paris 6, ali perto. "De meia hora a quarenta minutos de espera". "Obrigado, vamos em outro lugar". A saga em busca de uma sobremesa continuou e fomos no argentino Havana. Não tinha fila e em 5 minutos já estávamos sentados. Maravilha! Fizemos o pedido. Um cheesecake e um brownie com sorvete. Passaram-se 10, 15, 20, 25 minutos e nada. Suponho que foi um pedido simples, não deveria demorar tanto. Perguntei ao gaçom e ele disse que meu pedido era o próximo. Depois disso, inúmeros pedidos saindo antes do nosso, o caos no atendimento e um balcão abarrotado de bandejas sujas, nos fez desistir. Saímos. "Tem uma Ofner na Alameda Campinas que é 24h". Eu não conhecia. Fomos até lá. Foi o que "salvou" a noite e saciou nosso desejo de comer doce - lá, não tinha fila.

É muita rabugice da minha parte querer chegar em uma balada, pegar a comanda e entrar sem espera? Ou em um restaurante simplesmente sentar-me à mesa e fazer o pedido? Não é demais esperar 30, 40 minutos e em casos mais graves mais de uma hora para poder ser atendido? Este estado crítico já é percebido em outros setores como transporte. Eu que moro no Centro e trabalho perto da Paulista, já desisti de usar o Metrô no fim da tarde. Volto para casa feliz e a pé na minha caminhada de 45 min longe do tumulto das estações.

Em São Paulo, todos os lugares têm filas, e esperar pelo menos meia hora, muitas vezes em pé no frio, passou a ser algo normal. Confesso que parte disso se deve a preguiça de conhecer e experimentar novos lugares - é mais fácil e cômodo ir onde já conhecemos e pelo visto a maioria das pessoas pensam assim.

A sensação que tenho é que a cidade, pouco a pouco, está se tornando um lugar impraticável. Aí, a gente tenta dar um jeitinho para fugir do trânsito. Depois um jeitinho para fugir do Metrô lotado. Depois da balada com fila e do restaurante apinhado. E shows? Muitas vezes, se o ingresso não for comprado com um mês de antecedência, se esgotam. Tem que ficar antenado e correr mesmo. E vale lembrar: tudo custa caro (bem caro às vezes) e a lei da oferta e procura tem ido contra os interesses do consumidor. Será que a velha e boa pizza delivery é o programa mais seguro para um sábado a noite numa cidade que está se tornando inviável? Será que trocar o sábado e domingo por segunda e terça seria um paliativo para fugir de lugares lotados? Fiz uma tentativa.

http://www.flickr.com/photos/renatopborges/4822364055/

Segunda feira, 19 de Julho. Fomos ao La Tartine, um bistrô simpático na R. Fernando de Albuquerque. Da porta deu pra perceber que havia um bom movimento lá dentro. Momentos de tensão. Será que, em plena segunda-feira, haveria fila de espera? Respirei fundo. Entramos. "Tem uma mesa aqui embaixo e tem mais lá em cima". Ufa, não tinha fila de espera. Subimos e pudemos apreciar a especialidade da casa - quiche - e tomar um prosseco com uma tranquilidade atípica de São Paulo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

[EXPOSIÇÃO] MAUREEN BISILLIAT - FOTOGRAFIAS

Acervo Instituto Moreira Salles
Centro Cultural Fiesp


Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra em 1931 e aos 26 anos muda-se para o Brasil fixando residência em São Paulo. Atuou como fotojornalista para Editora Abril e lançou diversos livros de fotografia como Bahia Amada Amado com textos de Jorge Amado e O Cão sem Plumas com textos de João Cabral de Melo Neto.

Na exposição Fotografias, Maureen faz uma retrospectiva de diversos momentos de sua carreira abordando temáticas diversas como a Bahia, o cangaço, os índios, os negros entre outros temas.

No entanto, sua obra possui pontos que interligam seus diferentes temas: a questão da palavra e a necessidade de retratar as diversas condições humanas através de classes operárias.

“Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração”. ---Maureen Bisilliat

Sala Cortejo Luminoso

Aqui, Maureen retrata a arte e cultura de diferentes regiões do país. Em Alagoas, registrou figurantes na festa do Reisado, um auto popular de caráter profano-religioso, formado por músicos, cantores e dançadores. Em Pernambuco o Afoxé de Caboclo. No Rio de Janeiro, retrata alguns fragmentos, mas que representam de certo modo a essência da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Lá, adentra a casa de uma das personagens mais representativas da tradicional escola, Dona Neuma, filha de um dos fundadores da Mangueira. Cartola, famoso compositor de sambas também está presente. Mas no momento em que estas expressões de arte popular são registradas em diferentes locais do Brasil, existe uma confluência na intenção de captar diferentes manifestações artísticas mostrando ao mesmo tempo sua simplicidade e essência. Ainda que não tenha se baseado na obra escrita como acontece ao longo de sua obra, poderíamos considerar que a figura de um compositor, tenha dado uma certa cadência à composição das imagens.

Sala Bahia Amada Amado

As imagens da sala Bahia Amada Amado (feitas nos fins dos anos 50), são provenientes do livro de mesmo nome lançado com texto do escritor baiano Jorge Amado (Maureen constantemente vai buscar na literatura e poesia o fio condutor de sua arte). O impacto inicial das fotografias se dá no fato de serem preto e branco. Normalmente associamos à Bahia a idéia de um lugar colorido, de pessoas alegres. Retratada dessa forma, é uma chance de observarmos a camada por trás do estereótipo e identificar características de lá. Se por um lado existe a alegria da Festa do Senhor do Bonfim, há também o trabalhador na execução de seu ofício, e a forma de mostrar a lida com o mar, nos engana tamanha a beleza e suavidade que as imagens sugerem.

 Salas A Guimarães Rosa, O Vaqueiro e Sertões

 Em 1963 Maureen ganha um exemplar de Grande Sertão – Veredas autoria de João Guimarães Rosa. O seu fascínio pelo livro a levou a conhecer o próprio autor e ela o visitou inúmeras vezes. Desse trabalho, resultou o livro A João Guimarães Rosa. As fotos sugerem um cotidiano triste, onde não se percebe alegria. Até mesmo a cena de um casamento, não alivia as feições rudes, de pessoas agrestes.

 Concomitantemente aos registros feitos em Minas Gerais, no Nordeste, o universo sertanejo (imagens feitas entre 1967 e 1972) é retratado desde os vaqueiros do Ceará, com suas feições rígidas como barreiras, debaixo de pesadas roupas de couro, passando por outros sertões: Juazeiro do Norte, Canindé e Bom Jesus da Lagoa. Dessa vez, é Euclides da Cunha o escritor escolhido para traduzir em palavras o que é mostrado em imagens. E de certo modo, assim como o livro Os Sertões aborda a Guerra de Canudos, o vaqueiro é como guerreiro em postura grave. O que fica evidente nos retratos feitos por Maureen é o envelhecimento dos personagens, e podemos afirmar que não se trata apenas da idade, mas da própria vida de recursos escassos, da pobreza.

 Sala Xingu

 No Centro-Oeste do país, o Parque Indígena do Xingu, foi, entre os anos de 1973 e 1977, documentado por Maureen não apenas através de fotografias, mas também do filme por ela dirigido Xingu/Terra. Aqui, a crítica social em favor da cultura indígena, é fomentada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas Bôas, sendo o primeiro, aquele que a convidou para fazer um trabalho semelhante ao que ela havia feito sobre Guimarães Rosa. Mas a concepção adotada para mostrar a problemática em torno da população indígena, não foi mostrar a degradação, mas sim a arte. É impossível dissociar da cultura indígena, seus vasos de barro, cocares, a própria pele pintada, os rituais e festividades. Nas imagens fotográficas, Maureen optou pela discrição dos olhares distantes e alheios, como se houvesse a intenção de não ter uma postura invasiva. Em momento algum, os índios demonstram perceber a existência de alguém que os registra.

 Sala Preta

 Foi em 1966 no MAM-SP a primeira exposição em que Maureen explorava a possibilidade de expressar a mulher negra de forma sensual, com apurado senso estético, sem uma abordagem que poderia diminuir a modelo retratada.

Em continuação a este trabalho, Maureen retratou outras expressões negras variando a intenção, mas denotando uma certa nudez, seja em formas discretamente sensuais de mulheres ou formas angelicais de crianças.

 Nota-se que as composições todas em preto e branco, tem forte a valorização da luz para imprimir contrastes vibrantes.

 Há ainda o registro de elementos da cultura africana como esculturas de madeira.

 Salas Japão, China, Bolivianos e África

Além das incursões na cultura e regionalismo brasileiros, Maureen, aventurou-se também em terras estrangeiras. No oriente, foi ao Japão e China. Assim que chegou ao Japão em 1987, o professor Lafcádio Hearn (nascido na Grécia e radicado na Japão) lhe disse “Não deixe de anotar suas primeiras impressões o mais rápido possível, pois elas são evanescentes e uma vez esmaecidas pelo tempo, nunca mais virão ao seu encontro”. E foi nos detalhes como as dobradiças de uma porta ou no sorriso discreto de uma moça com maquiagem branca e batom vermelho que começamos a perceber a estética que permeia esta cultura. Outro elemento que se destaca nas fotografias de Maureen sobre a cultura japonesa, é que há um constante clima de leveza e felicidade. Ainda que estejam em um trabalho braçal (como as cozinheiras) eles estão sempre sorrindo; ainda que debaixo de chuva quando posam para foto.

 Na China, onde estivera em 1982, percebe-se a diferença no comportamento das pessoas. Há um certo olhar reticente e sorrisos discretos, seja no casal jovem ou idosos. A busca pelos trabalhadores de classes operários se deu também nestes países e isto sugere que esta é uma forma que Maureen se vale para perceber a essência de um povo.

 Nos anos 80, Maureen visita também a Bolívia. Registra trabalhadores, suas roupas típicas com fortes tons de vermelho, e se por um lado a seriedade do cotidiano é impressa nas imagens, por outro, há festividade também.

 Ainda nas incursões estrangeiras, Maureen registrou a Costa do Marfim, no continente Africano retratando a moda, cultura e tradição deste país.

Mais informações sobre a exposição no Catraca Livre.

domingo, 25 de abril de 2010

GOTAN PROJECT – TANGO 3.0

Em seu terceiro álbum de estúdio, Gotan Project propõe uma atualização do tradicional ritmo argentino definindo essa sonoridade como o tango feito hoje


O nome do álbum Tango 3.0, a primeira vista, parece ser apenas porque este é o terceiro álbum de estúdio da banda formada em Paris por um argentino, um francês e um suíco. Mas deve haver aí, uma intenção não apenas de dar nome ao disco, mas propor que esta sonoridade seja simplesmente a nova forma de fazer tango hoje. O tradicional ritmo argentino que foi propagado por ícones como Carlos Gardel, foi a primeira versão do gênero, portanto, 1.0. Depois, quando o próprio Gotan surgiu em 2001 com La Revancha del Tango – nome que explicita a intenção de trazer à cena o tango - inaugurava algo que foi considerado como um novo gênero, o tango eletrônico, e fez escola. Agora, com a terceira versão, eles aparam arestas, continuam a misturar elementos de outros gêneros e tornam consistente um jeito diferente de tocar o ritmo.

Não houve mudanças radicais, a pegada é a mesma e nos primeiros acordes dá para reconhecê-los. Mas houve um aprimoramento e apuro se comparado aos anteriores. Isso já é notado no clipe de La Gloria. Se em Diferente (do disco Lunático, 2006) é exibido um tradicional salão de dança, agora uma forte estética de elementos díspares que não necessariamente contam a mesma história - garotas alvas em balanços, dançarinos sensuais de break, narração de futebol – propõe um conjunto visual fascinante e talvez rediscuta a forma de entender o gênero.

Algumas faixas são realmente lapidadas e é como se eles buscassem apenas o que é essencial para cada canção. Em Rayuela os vocais falados se juntam a um inesperado coro de crianças que remete a The Wall de Pink Floyd. Em Desilusion, uma batida cadenciada é a introdução para as habituais entonações femininas e sensuais que são sucedidas por mudanças de ritmo que vão e voltam ao longo da canção. Mil Millones começa com o barulho de um trem que vem de longe mas que, quando chega, descobrimos que aquele ruído longínquo mais se parece com uma bateria de escola de samba regido pelo apito do ritmista que segue a viagem com batidas de house. Em De Hombre a Hombre a fusão de instrumentos cria uma harmonia sofisticada, separada por camadas jazzísticas, ou que remetem a trilha de filme de faroeste. E claro, tudo costurado pelo bandoneon. Panamericana, música pronta para uma pista de dança conceitual, atinge o ápice depois daquilo que considero uma longa introdução de mais de três minutos (opção aposta a La Gloria que já inicia forte e vibrante).

Gotan está em plena forma e reviu com sutileza sua trajetória que, apesar de ter menos de uma década, já faz história.

quarta-feira, 17 de março de 2010

domingo, 14 de março de 2010

UM SÁBADO NO BAR DO NETÃO, NO BAIXO AUGUSTA

Ontem, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009) resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o clima de encontro de amigos não soou muito convidativo. Estávamos com fome, mas não queríamos jantar. Então, optei por comer um lanche simples no café do Ícone Espaço Cultural. Apesar do atendimento um tanto deficiente (um pedido de três itens chegaram separados), o lanchinho tostado de pão de forma com queijo estava gostoso e segurou a onda. Depois, a idéia era ir para um bar e tomar uns gorós antes de ir pra casa. O Volt, que fica na Haddock Lobo, era uma opção. Mas optamos por dar uma olhada na movimentação do Baixo Augusta.

Não sou afeito a tomar cerveja na calçada de botecos, mas ver aquela galera toda na rua, na Rua Augusta, é muito bacana. Reafirma a vocação noturna do lugar, que na década de 60 era point, mas que passou longos anos entregue aos inferninhos o que reduzia o potencial noturno de lá. Hoje, os inferninhos continuam lá (ainda bem) e se misturam com jovens de todos os tipos. Pode ser um barzinho que apaga a luz e liga o som para virar uma baladinha ou botecos de luz acesa servindo cerveja - e é o que importa: gente e cerveja. Dá um clima de liberdade e prazer poder andar na rua, no Centro de São Paulo, sem medo ser assaltado.

E foi descendo a Augusta, um pouco depois da esquina com a Peixoto Gomide, que vimos uma (mais uma) muvuca. Paramos. Havia um clima diferente, de tipos heterogêneos, não dava para definir um estilo. Chegando na porta do bar, parecia que era tão pequeno que poderia ser medido com poucos passos. Mas uma movimentação, um entra e sai e música eletrônica, deixava a dúvida: de onde vem e vai tanta gente? Entramos. Como que andando no escuro, fomos dando passos curtos rumo ao fundo do pequeno bar. E surpreendentemente, no fundo, dois ou três degraus abaixo do nível da rua, tinha uma micro pista de dança, tiras de plástico brilhante grudadas no teto que refletiam as poucas luzes coloridas. Ahn? Uma pista de dança onde se entra e sai livremente? Sim, era isso. E aquilo pareceu fascinante. Diferente de outros lugares e países, em São Paulo, não é comum poder estar numa pista de dança, sem antes passar por uma fila e pagar pela entrada. No Bar do Netão (R. Augusta, 822 B, São Paulo, SP) as pessoas entram e saem livremente, vão até a calçada, se misturam com todo o trânsito de pessoas, tomam uma cerveja e voltam para pista de dança, num movimento de revezamento que parece ensaiado já que o espaço é diminuto.

E na pista, havia uma rica fauna humana composta por hetero comportado, lésbica, modernete de óculos fundo de garrafa, gay, andrógino de moicano, tio freak, roqueiro, skatista, gente feia, gente bonita, tudo isso num espaço bem apertado, teto baixo ao som misturadão que passou, entre outras coisas, por Miss Kittin e Michael Jackson. E aquela falta de uniformidade na música me pareceu adequada ao clima de diversidade que é a cara daquele lugar.

Às vezes, não estamos a fim de ficar dentro de um quadrado fechado ouvindo um som tão alto que nem conseguimos conversar. É bom poder ir até a calçada, respirar, ver gente subindo e descendo, ver um cenário diferente das baladas que costumamos ir. Espero que lugares assim, se tornem uma tendência.

Quem sabe é uma forma efetiva das pessoas saírem de suas caixas para ganhar as ruas livremente, exercendo o direito de ir e vir sem ter que dar satisfações a hostess, ao segurança, nem ninguém. Sem ter que ficar fechadas dentro de um cubo que só se abre com o nascer do sol, sem medo de se misturar. Exercendo a liberdade de ser ou não ser diferente.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

FILME: ESTÔMAGO, DE MARCOS JORGE

É comum trailers não conseguirem vender bem a idéia dos filmes. E nesse ponto, "Estômago" (Brasil / Itália / 2007) , já começa em vantagem: o trailer é ótimo, engraçado e dá vontade de assistir ao filme.

A história: nordestino recém chegado em São Paulo consegue emprego em um boteco e lá descobre suas habilidades gastronômicas.

Parece um tema banal. Mas o filme é impecável em todos os detalhes. Os atores são excelentes, com destaque para João Miguel e Fabiula Nascimento. O roteiro, apesar da aparente agressividade expressa em dúzias de palavrões, é sutil e torna, por exemplo, o ambiente de um presídio, um lugar onde criminosos passam a apreciar a arte da gastronomia. A fotografia em total sintonia com a trilha sonora, cria um clima único e original se considerarmos o que já foi feito no cinema brasileiro.

O filme mostra que a arte pode ser apreciada em qualquer lugar, desde um boteco, até uma prisão. Revela também que o poder pode ser exercido de várias formas: seja conquistando através do paladar ou da força bruta.

E para relembrar a frase do crítico Anton Ego, personagem do filme Ratatouille:

"Nem todos podem se tornar grandes artistas,
mas um grande artista pode vir de qualquer lugar"

Site Oficial:
http://www.estomagoofilme.com.br/apresentacao1.htm

Saiba mais sobre o filme:
http://www.adorocinema.com.br/filmes/estomago/estomago.asp

Trailer do Filme:
http://www.youtube.com/watch?v=zPmVXkWi9Yk

Cenas do filme:
http://www.youtube.com/user/estomagofilme

segunda-feira, 9 de julho de 2007

SE ELA CANTA EU CANTO: MEU DRAMA

Música: Meu Drama (Senhora tentação)
Composição: Silas de Oliveira - Joaquim Ilarindo

Fabiana Cozza
O samba é meu dom
2004


Renato Braz
Renato Braz
1996



OUÇA:

http://renatopborges.multiply.com/music/item/113

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Youtube e Flickr em português

Hoje quando entrei no Youtube, vi que tinha algo de estranho. Foi navegar por uma página e perceber que agora há uma versão em Português do mais famoso site de comportilhamento de vídeos. Outros idiomas como francês, italiano, espanhol entre outros, também ganharam traduções.

O mesmo aconteceu com o Flickr, empresa do Yahoo e melhor site de compartilhamento de fotos. Os caras do Flickr fizeram o trabalho direito e agora podemos comprar licenças PRO pagando em Reais, sem ter que usar o PayPal. Ah, se você tiver Mastercard.

Eu já estava muito acostumado com ambos sites em inglês, mas quando se lê em português, parece que algo que estava meio embassado, fica totalmente nítido.

sábado, 31 de março de 2007

GMAIL PAPER

Google apresenta Gmail Paper. Imagine ter uma cópia em papel de todos seus milhares de e-mails e fotos? O Google vai fazer isso. E de graça. Clique sobre a imagem e veja detalhes ou acesse a página explicando esse "maravilhoso" recurso. Mas corre que é só hoje. 1º de Abril ;-)




terça-feira, 13 de março de 2007

ARNALDO ANTUNES NO TEATRO FECAP

Nunca tive muito interesse em ouvir Titãs, logo, quando comentam algo como "Arnaldo Antunes, ex Titãs" isso não parece fazer muito sentido pra mim. Já gostava de várias músicas como O Silêncio, Desce, Fora de Si, O Pulso entre outras. Mas o primeiro disco de Arnaldo que comprei, foi "Saiba" em 2004. Então possso dizer que o descobri tardiamente. Depois disso é que fui ouvir outros álbuns como Ninguém, Silêncio, O Corpo e Paradeiro.

Em 2006, com o lançamento de Qualquer, Arnaldo reafirma sua música menos rock e cada vez melhor. É verdade que ouvindo seu mais recente trabalho, o canto parece um tanto repetitivo, mas ao vivo, ganha vida em nuances graves e minimalistas.

No show em cartaz no Teatro FECAP, São Paulo, Arnaldo soube dosar o repertório do novo disco, com músicas de outros álbuns, numa formação basicamente de violão, guitarra e teclados. O excelente resultado verteu-se em um folk brasileiro psicodélico entrecortado por arcordeon, canto a capela e alguns sons distorcidos do teclado. Houve até momento bossa nova, com devida adapatação, trocando o termo "bossa nova" por "rock and roll" na música Desafinado, além de Exagerado e Lua Vermelha (que já foi gravada, de forma sensacional por Maria Bethânia no disco Âmbar). Um show imperdível que estará em cartaz até o próximo fim de semana.

Informações sobre o show

Veja o programa do show

Ouça canções do álbum Qualquer

sábado, 3 de março de 2007

SITE PROMOVE CAMPANHA DE 24 HORAS SEM COMPUTADOR

Não é nada típico ficar um dia inteiro sem computador, ainda mais no sábado, dia que estamos em casa muitas vezes sem fazer nada. Mas acho que vale a pena tentar.

Leia matéria no Terra.


sábado, 24 de fevereiro de 2007

ACONTECE EM SÃO PAULO

Domingo passado resolvi ir ao Planetário que fica dentro do Parque do Ibirapuera. A caminho do Parque, "descobri" um grafite d´osgemeos bem perto de casa, numa rua que dá acesso à Av. 23 de Maio. Faz uns meses que tenho fotografado grafites pela cidade.


Clique aqui para ver a imagem ampliada

Chegando lá, vi que todas as sessões estavam esgotadas! Aproveitei para dar uma volta no parque e fazer um vídeo rápido (pouco mais de 3 min) apesar de minha câmera filmar pessimamente mal.


Clique aqui para assitir o vídeo

Na volta, atravessei a passarela em frente ao DETRAN-SP e fiz a foto abaixo.


Clique aqui para ver a foto ampliada

Depois fui para Paulista assistir um filme. Enfim, para um domingo de Carnaval, um programa tipicamente paulistano :-)

MAIS:

Veja outas fotos de grafites no meu álbum do Flickr

Assista outros vídeos do Parque do Ibirapuera no Youtube

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

MARIANA AYDAR, CHOPERIA DO SESC POMPÉIA

Ontem na Choperia do Sesc Pompéia, vi pela primeira vez o show de Mariana Aydar, que lançou o álbum "Kavita 1" em 2006.

Eu gosto do disco, acho que tem boas músicas, gosto também do jeito dela cantar. Mas ao vivo ficou um pouco devendo. Acho que não acrescentou muito em relação ao disco. Faltou um pouco de ousadia e criatividade. Algumas músicas até perderam a força.

Os vocalizes de "Vento no Canavial" e "Prainha", ponto alto no cd, quase desapareceram ao vivo. Outro problema, aliás, foram as vezes que ela falou com a platéia. Não deu pra entender de tão baixo. Talvez tenha sido algum problema técnico.

Se ela não tivesse cantado "Vai vadiar", hit de Zeca Pagodinho e "Consolação" (Baden Powell / Vinícius de Morais), o repertório teria sido previsível demais.

Talvez o fato do disco ser bem produzido e ela está cantando muito bem, tenha causado uma certa expectativa. É que num mercado musical onde surgem muitas novas e boas cantoras, a competição é inevitável, acirrada e a exigência é grande.

MAIS:

Ouça algumas canções de Mariana Aydar no MySpace

PRO DIA NASCER FELIZ, JOÃO JARDIM

Sábado, fui ao Espaço Unibanco assistir o documentário "Pro dia nascer feliz" de João Jardim. Sinopse: As situações que o adolescente brasileiro enfrenta na escola, envolvendo preconceito, precariedade, violência e esperança. Adolescentes de 3 estados, de classes sociais distintas, falam de suas vidas na escola, seus projetos e inquietações (1).

Honestamente, saí do cinema com a sensação de que o problema da (falta) de educação no Brasil é tão crônico, que é quase impossível ser resolvido. Mas agora, passado o impacto do filme, volto a pensar que ainda temos que ter esperança. Putz, esperança...Lembro-me uma vez, assistindo "Provocações" (o entrevistado era o escritor Marcelo Mirisola), no quadro "Vozes das ruas", o tema era "A esperança acabou com a América Latina! Ou não?".

A gente é especialista em ter esperança. Espera que o governo se torne menos corrupto. Espera que a violência diminua. Espera que o sistema educacional melhore. Vamos esperando sem fazer nada, sem saber como fazer, como começar a fazer. Permanecemos impotentes. Ou pior: acusamos os políticos (de quem não espero nada em benefício do país) pelos problemas do Brasil. Isso é bastante estranho.

Se há um consenso que os políticos são corruptos, porque esperar que a mudança venha deles? Não tem coerência. Mas acho não faz parte da cultura brasileira saber exigir, saber reivindicar. Somos muito bons em reclamar, mas pára por aí. Existe sempre um sentimento de "por onde começo a mudar o mundo". Teve até uma campanha da grife Fórum que estampava na camiseta uma frase desse tipo. Eu mesmo, agora, estou exercitando meu direito de reclamar, porém, mais uma reclamação entre milhares.

Voltando ao filme...

Muitas situações são expostas. Como estudantes de pernambuco que percorrem 31km com o ônibus cedido pela prefeitura (na ocasião das filmagens quebrado) para chegar até a escola. Em duas semanas, só foram estudar três vezes.

No Rio de Janeiro, o relato anônimo de uma adolescente que conta como matou a facadas uma colega de escola: "ela ainda demorou dez minutos para morrer...Sou menor, três anos na Febem passam rápido"

Em São Paulo, num colégio conceituado, a estudante vive o dilema de ser muito estudiosa e que ficou com apenas um garoto o ano todo. Ela estuda demais e vive de menos. Além disso, está sendo "disputada" por uma rede de ensino devido suas altas notas.

Fico pensando como vai ser a vida dessa geração daqui 20 anos. Imagino que teremos uma sociedade ainda mais caótica. Analfabetos funcionais que vão engrossar a espessa camada de excluídos. De outro lado, a classe média com escudos tentando defender-se daqueles que estão à margem.

No domingo, assisitindo o quadro "Ser ou não Ser" no Fantástico, apresentado por Viviane Mosé, ela disse algo muito interessante sobre a pobreza e miséria. Que as pessoas que chegam a miséria, não se sentem parte da sociedade e da cidade. Passam a ser invisíveis aos olhos da cidade. Quantas vezes já passamos por pessoas em estado deplorável na rua e mal olhamos, nem nos importamos? Então, essa pessoa que se sente excluída, não vê motivos para respeitar as regras da sociedade que a excluiu. Assim, passa a criar as próprias regras e consequentemente desrespeitar as demais. Daí, cresce dia a dia a violência que vemos hoje.

No fim da matéria, salientou a urgência que a sociedade tem em discutir uma forma de reverter este quadro. Mais uma proposta de discussão. Mas ação mesmo, pelo visto vamos continuar esperando, esperando.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

EU TENHO SORTE! 2

"Sorriu para mim
Não disse nada porém
Fez um jeitinho de quem ver voltar"

Lembrei desses versos hoje, enquanto estava tomando um sorvete na hora almoço. Mas, diferente da música "Sorriu para mim " (Garôto/Luiz Cláudio) conhecida na voz de João Gilberto, não me refiro a um ex amor. Me refiro à Sorte ;-)

Recentemente postei aqui falando que peguei um sorvete premiado. Desses que você ganhar outro sorvete. E não é que hoje, tirei outro sorvete premiado! Pra quem nunca havia sido sorteado em nada, estou com muita sorte.

Deve ser mesmo um sinal dos Deuses. Eu tinha falado que ia jogar na mega sena, mas acabei não jogando. Acho que esta semana não vou deixar de arriscar uma aposta. Talvez seja minha chance de ficar milioário.

Veja a prova da minha onda de sorte que continua:

domingo, 11 de fevereiro de 2007

A DEFINIÇÃO DE MÚSICA ELETRÔNICA ESTÁ LIGADA AO CONCEITO

Normalmente, quando nos referimos à música eletrônica, logo pensamos em DJs, pista de dança, samplers e softwares de edição de áudio. A primeira frase que vem é "música feita no computador".

Mas a música eletrônica é bem mais que isso. Naturalmente, não me refiro a "dance music" que se ouve nas FMs, que é a pior referência que podemos ter.

Existem muitas vertentes e sub vertentes da e-music (eletronic music). Como exemplo o House, que pode se subdividir em deep house, tech house, tribal house, hard house, etc. E essas subdivisões são bem diferentes entre si. Tem ainda o Techno, Trance, Drum and Bass e muitos outros segmentos na linha Ambient. Mas vários desses segmentos de e-music são majoritariamente feitos por djs-produtores, que não tem necessariamente formação em música tradicional.

Voltando ao título do post, “Música eletrônica é um conceito”, basta observarmos suas incursões na música contemporânea. Não vou tomar como exemplo Fernanda Porto ou Bossacucanova, que são as referências mais conhecidas por aqui, quando o assunto é mpb + e-music, porque pretendo expor experiências menos observadas.

O que define a música eletrônica de verdade é a forma que a canção foi concebida, o ritmo e batidas. Podemos ter música com conceito de eletrônica, feita ao vivo, sem DJ nem computador. A primeira vez que notei isso, foi alguns anos atrás, quando assisti uma apresentação do Balé da Cidade de São Paulo, na coreografia “Baile na Roça”, homenagem a Portinari, no Teatro Municipal em São Paulo. Nesta ocasião, a Orquestra Sinfônica Municipal executou ao vivo a trilha sonora. Entre outras canções estava “Doideca”, de Caetano Veloso, do álbum “Livro”. Ao ouvir esta música, temos a impressão de que foi feita por djs, samplers e computador, quando na verdade, há uma mistura de instrumentos de percussão. Ou seja, o conceito e ritmo, são de música eletrônica, mas não é música feita no computador.

Há outros exemplos (ouça abaixo) como o álbum “Medulla” de Björk, cuja base de todo disco é de vocais humanos, ao invés de sons sintetizados. Tem o álbum “Flash” do percussionista Marcos Suzano (que já tocou para 10 entre 10 estrelas da música brasileira). Vi seu show e fiquei impressionado com o som que ele tirava do pandeiro. Os “Barbatuques”, grupo de percussão corporal, no álbum “Corpo do Som”, fazem na faixa “Num Deu pra Credita” música eletrônica autêntica, pronta para ser tocada numa pista de dança e 100% feita por sons provenientes dos corpos e vozes dos integrantes do grupo.

Na edição das músicas que citei, pode até haver intervenção eletrônica, mas a matéria prima, é som produzido por ser humano e não por máquinas. É música executável ao vivo e sem playback.

Passado o susto inicial que muitos tiveram com o estouro da música eletrônica nos anos 90, podemos deixar que ela se incorpore à música brasileira e mundial, seja com batidas no corpo, com instrumentos de percussão e até mesmo com o auxílio do computador.

OUÇA:

Barbatuques - Num Deu pra Creditá

Björk - Triumph of a Heart

Caetano Veloso – Doideca

Marcos Suzano – The Message

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

MYSPACE É UM ÓTIMO LUGAR PARA CONHECER NOVOS ARTISTAS

O site de relacionamentos e comunidades MySpace.com, é um dos mais acessados dos Estados Unidos e do mundo. É uma espécie de Orkut norte americano, com mais de 100 milhões de usuários.


Mas o que torna o MySpace um site bacana, não é a quantidade de usuários conectados ao serviço, mas sim a possibilidade de descobrir novos artistas. Hoje, qualquer artista, seja novato ou midiático, tem um perfil no MySpace e disponibiliza algumas faixas para os usuários conhecerem seu som.

O ex N´Sinc, Justin Timbarlake por exemplo, teve seu hit pop SexyBack, escutado mais de 13 milhões de vezes no site. Porém, o MySpace tem coisas bem mais interessantes para ouvir, principalmente artistas fora do esquema da grande mídia.

Selecionei alguns que tenho ouvido por lá, apenas quatro, mas navegue pelo site e descubra muito mais. Uma dica, é ficar atento à lista de contatos dos artistas para descobrir novos sons.

ALESSANDRA LEÃO
Alessandra Leão está lançando seu primeiro trabalho solo: Brinquedo de Tambor. Uma releitura autoral para o Coco de Roda pernambucano e o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, absorvendo ainda influências da tradição musical do Maranhão, da África Central e de América Latina.(1)

ZUCO103
A trio residente na Holanda, tem nos vocais a brasileira Lilian Vieira, o baterista holandês Stefan Kruger e o tecladista alemão Stefan Schmid (2). Lilian canta basicamente em português, como podemos perceber no MySpace. O grupo não tem cds lançados no Brasil. É possível encontrar algumas músicas em coletâneas apenas ou comprar como importado.

UpDate: A Ginga P, está comercializando o álbum Tales of high Fever. Saiba mais aqui.


3 NA MASSA
A idéia do projeto é: mulheres falando de suas experiências amorosas com homens (ou não...) que marcaram as suas vidas de algum modo, seduzindo, ou sendo seduzidas, pervertendo ou sendo pervertidas por estes (as). A sensualidade transborda pelas beiradas do disco mundo a fora e enche os ouvidos de belas estórias entremeadas por musicas que podem soar ora picantes, saudosas, alegres, divertidas (quase que circenses) ou como devaneios eróticos em um parque de diversões. (3)

MARIANNA LEPORACE
"...em 2001, lançou com a pianista Sheila Zagury o espetáculo “SÃO BONITAS AS CANÇÕES”, mostrando parcerias de Chico Buarque e Edu Lobo. O espetáculo virou disco e contou com participação dos autores nas faixas “Tororó” e “No Barco de Lia, Na Ilha de Rosa”. Possui um duo com o violonista Willians Pereira e tem se apresentado ao lado de Marcel Powell cantando o repertório do compositor Baden Powell, já registrado em disco e lançado em 2006 no Japão pelo produtor Kazuo Yoshida. No Brasil, o disco será lançado em 2007, na Sala Baden Powell."(4)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

SE ELA CANTA EU CANTO: GENI E O ZEPELIN

Recentemente, postei falando sobre as gravações da música Delicate, feita por seu autor, Damien Rice e por Celso Fonseca. Neste caso, são duas interpretações muito boas e a releitura de Celso é criativa e não lembra em nada a canção de Damien. Mas nem sempre regravações são bem sucedidas. Muitas vezes, nada acrescentam e nem dá pra considerar como um interpretação de verdade, apenas uma reprodução. Aliás, como existe regravação na música brasileira! Tributos a Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, só pra citar os mais famosos, cansam e normalmente não conseguem sair do lugar comum. Mas vou me ocupar com as regravações e tributos que considero valer a pena ouvir.

Vou postar uma série intitulada "Se ela canta, eu canto" onde, vou postar duas interpretações bem sucedidas da mesma música. Sim, este título é uma alusão ao funk do MC Leozinho, que aliás, já comentei por aqui.

Vou começar com a música "Geni e o Zepelin", que apesar de ter um registro irretocável feito por seu autor, Chico Buarque, recebeu uma boa dose de ironia e escárnio na interpretação de Cida Moreyra.

MÚSICA:

Geni e o Zepelin
(Chico Buarque)

DO ÁLBUM:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (1979)
Cida Moreyra - Cida Moreyra canta Chico Buarque (1992)

OUÇA:

http://renatopborges.multiply.com/music/item/99

domingo, 4 de fevereiro de 2007

CRISTINA BUARQUE E TERREIRO GRANDE NO TEATRO FECAP

O Teatro FECAP segue com sua agenda de bons shows e a temporada atual conta com Cristina Buarque e Terreiro Grande. O repertório é traz sambas de compositores de escolas de samba, principalmente Portela, porém não se houve samba enredo. Canções de Paulo da Portela, Manacéa, Zé da Zilda, Cartola entre outros estão presentes.

Estive no show hoje e foi bem difícil ficar ali na poltrona enquanto o sambão de primeira corria solto. Pra quem é de São Paulo ou estará aqui na próxima semana, aproveite pois a temporada vai até o dia 11/02/2007.

Serviço: A irmã caçula de Chico e Miúcha se encontra com os pesquisadores do samba de terreiro para reverenciar mestres como Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Xangô da Mangueira e Ismael Silva. 90 min.www.fecap.br. Teatro Fecap (av. da Liberdade, 532, Liberdade, região central, tel. 0800-551902). 400 lugares. Ingr.: R$ 10 (p/ estudantes: R$ 5). Valet (R$ 12). Temporada: 01 a 04 e 08 a 11 de Fevereiro 2007. Quinta a Sábado: às 21h Domingo: às 19h


MAIS:

Veja o programa do show

Acesse o site do Teatro FECAP

Ouça algumas canções de Cristina Buarque

sábado, 3 de fevereiro de 2007

EU TENHO SORTE!

Nunca tive sorte em sorteios, bingos, rifas, par ou ímpar ou jogo do bicho. Nunca ganhei nada. Vai ver aquela história de sorte no amor, azar no jogo, seja verdade. Ou não.

Semana passada, depois de almoçar, fui tomar um sorvete como faço nos dias de calor. Qual não foi minha surpresa, ao ver que o palito do picolé estava premiado!

Acho que estou num período de sorte e por isso, vou jogar na mega sena e outras loterias que possam me tornar milionário.

Eis a prova da minha onda de sorte:

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

COMUNIDADE OUÇA ESTE ARTISTA

Meu amigo Adalberto criou uma comunidade muito bacana no Orkut, "Ouça este artista". A intenção é trocarmos informações sobre artistas bacanas que estão fora do esquema comercial, mas que devemos ouvir, simplesmente porque são bons.

Veja a descrição: Um espaço dedicado a alguns dos artistas que têm uma obra bacana, cuja divulgação segue meios alternativos. Não há rótulos, nem nacionalidades... contém trechos de áudio de cerca de 30 segundos cada.

Se você acessa o Orkut, não deixe de participar.

Mais:

Acesse a Comunidade

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

BEBEL GILBERTO - MOMENTO

Chega em março o novo álbum de Bebel Gilberto, e o nome é Momento. No MySpace, já é possível ouvir duas faixas: "Os Novos Yorkinos" e "Bring back the love". Aliás, esta música já conta com um EP de 5 faixas, a venda na loja da Apple, através do Itunes. Ou seja, mesmo que você quisesse muito não poderia comprar. A menos que você tenha um cartão de crédito emitido nos Estados Unidos ou Europa. Achei a capa bacana e tropical. A Bebel tá diferente, meio neguinha.

Eu sou super fã da Bebel, tenho os cds, fui nos shows. Estou muito curioso para conhecer este novo trabalho. Enquanto isso, vamos ouvindo as duas faixas que estão disponíveis. Achei "Os Novos Yorkinos" bacana, uma batida gostosa, bem ao estilo da Bebel. "Bring back the love" é dançante, house, batidas tribais. Gostasa de ouvir também.
Se você não conhece Bebel, sugiro ouvir estas três faixas que disponibilizei aqui.