domingo, 14 de março de 2010

UM SÁBADO NO BAR DO NETÃO, NO BAIXO AUGUSTA

Ontem, depois de assistir Direito de Amar (A single man, 2009) resolvemos dar uma volta nos arredores da Paulista. Passamos no Tostex, chegamos a subir, dar uma olhada e o clima de encontro de amigos não soou muito convidativo. Estávamos com fome, mas não queríamos jantar. Então, optei por comer um lanche simples no café do Ícone Espaço Cultural. Apesar do atendimento um tanto deficiente (um pedido de três itens chegaram separados), o lanchinho tostado de pão de forma com queijo estava gostoso e segurou a onda. Depois, a idéia era ir para um bar e tomar uns gorós antes de ir pra casa. O Volt, que fica na Haddock Lobo, era uma opção. Mas optamos por dar uma olhada na movimentação do Baixo Augusta.

Não sou afeito a tomar cerveja na calçada de botecos, mas ver aquela galera toda na rua, na Rua Augusta, é muito bacana. Reafirma a vocação noturna do lugar, que na década de 60 era point, mas que passou longos anos entregue aos inferninhos o que reduzia o potencial noturno de lá. Hoje, os inferninhos continuam lá (ainda bem) e se misturam com jovens de todos os tipos. Pode ser um barzinho que apaga a luz e liga o som para virar uma baladinha ou botecos de luz acesa servindo cerveja - e é o que importa: gente e cerveja. Dá um clima de liberdade e prazer poder andar na rua, no Centro de São Paulo, sem medo ser assaltado.

E foi descendo a Augusta, um pouco depois da esquina com a Peixoto Gomide, que vimos uma (mais uma) muvuca. Paramos. Havia um clima diferente, de tipos heterogêneos, não dava para definir um estilo. Chegando na porta do bar, parecia que era tão pequeno que poderia ser medido com poucos passos. Mas uma movimentação, um entra e sai e música eletrônica, deixava a dúvida: de onde vem e vai tanta gente? Entramos. Como que andando no escuro, fomos dando passos curtos rumo ao fundo do pequeno bar. E surpreendentemente, no fundo, dois ou três degraus abaixo do nível da rua, tinha uma micro pista de dança, tiras de plástico brilhante grudadas no teto que refletiam as poucas luzes coloridas. Ahn? Uma pista de dança onde se entra e sai livremente? Sim, era isso. E aquilo pareceu fascinante. Diferente de outros lugares e países, em São Paulo, não é comum poder estar numa pista de dança, sem antes passar por uma fila e pagar pela entrada. No Bar do Netão (R. Augusta, 822 B, São Paulo, SP) as pessoas entram e saem livremente, vão até a calçada, se misturam com todo o trânsito de pessoas, tomam uma cerveja e voltam para pista de dança, num movimento de revezamento que parece ensaiado já que o espaço é diminuto.

E na pista, havia uma rica fauna humana composta por hetero comportado, lésbica, modernete de óculos fundo de garrafa, gay, andrógino de moicano, tio freak, roqueiro, skatista, gente feia, gente bonita, tudo isso num espaço bem apertado, teto baixo ao som misturadão que passou, entre outras coisas, por Miss Kittin e Michael Jackson. E aquela falta de uniformidade na música me pareceu adequada ao clima de diversidade que é a cara daquele lugar.

Às vezes, não estamos a fim de ficar dentro de um quadrado fechado ouvindo um som tão alto que nem conseguimos conversar. É bom poder ir até a calçada, respirar, ver gente subindo e descendo, ver um cenário diferente das baladas que costumamos ir. Espero que lugares assim, se tornem uma tendência.

Quem sabe é uma forma efetiva das pessoas saírem de suas caixas para ganhar as ruas livremente, exercendo o direito de ir e vir sem ter que dar satisfações a hostess, ao segurança, nem ninguém. Sem ter que ficar fechadas dentro de um cubo que só se abre com o nascer do sol, sem medo de se misturar. Exercendo a liberdade de ser ou não ser diferente.

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