Em seu terceiro álbum de estúdio, Gotan Project propõe uma atualização do tradicional ritmo argentino definindo essa sonoridade como o tango feito hojeO nome do álbum Tango 3.0, a primeira vista, parece ser apenas porque este é o terceiro álbum de estúdio da banda formada em Paris por um argentino, um francês e um suíco. Mas deve haver aí, uma intenção não apenas de dar nome ao disco, mas propor que esta sonoridade seja simplesmente a nova forma de fazer tango hoje. O tradicional ritmo argentino que foi propagado por ícones como Carlos Gardel, foi a primeira versão do gênero, portanto, 1.0. Depois, quando o próprio Gotan surgiu em 2001 com La Revancha del Tango – nome que explicita a intenção de trazer à cena o tango - inaugurava algo que foi considerado como um novo gênero, o tango eletrônico, e fez escola. Agora, com a terceira versão, eles aparam arestas, continuam a misturar elementos de outros gêneros e tornam consistente um jeito diferente de tocar o ritmo.
Não houve mudanças radicais, a pegada é a mesma e nos primeiros acordes dá para reconhecê-los. Mas houve um aprimoramento e apuro se comparado aos anteriores. Isso já é notado no clipe de La Gloria. Se em Diferente (do disco Lunático, 2006) é exibido um tradicional salão de dança, agora uma forte estética de elementos díspares que não necessariamente contam a mesma história - garotas alvas em balanços, dançarinos sensuais de break, narração de futebol – propõe um conjunto visual fascinante e talvez rediscuta a forma de entender o gênero.
Algumas faixas são realmente lapidadas e é como se eles buscassem apenas o que é essencial para cada canção. Em Rayuela os vocais falados se juntam a um inesperado coro de crianças que remete a The Wall de Pink Floyd. Em Desilusion, uma batida cadenciada é a introdução para as habituais entonações femininas e sensuais que são sucedidas por mudanças de ritmo que vão e voltam ao longo da canção. Mil Millones começa com o barulho de um trem que vem de longe mas que, quando chega, descobrimos que aquele ruído longínquo mais se parece com uma bateria de escola de samba regido pelo apito do ritmista que segue a viagem com batidas de house. Em De Hombre a Hombre a fusão de instrumentos cria uma harmonia sofisticada, separada por camadas jazzísticas, ou que remetem a trilha de filme de faroeste. E claro, tudo costurado pelo bandoneon. Panamericana, música pronta para uma pista de dança conceitual, atinge o ápice depois daquilo que considero uma longa introdução de mais de três minutos (opção aposta a La Gloria que já inicia forte e vibrante).
Gotan está em plena forma e reviu com sutileza sua trajetória que, apesar de ter menos de uma década, já faz história.
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