segunda-feira, 21 de junho de 2010

[EXPOSIÇÃO] MAUREEN BISILLIAT - FOTOGRAFIAS

Acervo Instituto Moreira Salles
Centro Cultural Fiesp


Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra em 1931 e aos 26 anos muda-se para o Brasil fixando residência em São Paulo. Atuou como fotojornalista para Editora Abril e lançou diversos livros de fotografia como Bahia Amada Amado com textos de Jorge Amado e O Cão sem Plumas com textos de João Cabral de Melo Neto.

Na exposição Fotografias, Maureen faz uma retrospectiva de diversos momentos de sua carreira abordando temáticas diversas como a Bahia, o cangaço, os índios, os negros entre outros temas.

No entanto, sua obra possui pontos que interligam seus diferentes temas: a questão da palavra e a necessidade de retratar as diversas condições humanas através de classes operárias.

“Aprecio imagens aliadas à escrita, frases escolhidas definindo melodicamente a linha da orquestração”. ---Maureen Bisilliat

Sala Cortejo Luminoso

Aqui, Maureen retrata a arte e cultura de diferentes regiões do país. Em Alagoas, registrou figurantes na festa do Reisado, um auto popular de caráter profano-religioso, formado por músicos, cantores e dançadores. Em Pernambuco o Afoxé de Caboclo. No Rio de Janeiro, retrata alguns fragmentos, mas que representam de certo modo a essência da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Lá, adentra a casa de uma das personagens mais representativas da tradicional escola, Dona Neuma, filha de um dos fundadores da Mangueira. Cartola, famoso compositor de sambas também está presente. Mas no momento em que estas expressões de arte popular são registradas em diferentes locais do Brasil, existe uma confluência na intenção de captar diferentes manifestações artísticas mostrando ao mesmo tempo sua simplicidade e essência. Ainda que não tenha se baseado na obra escrita como acontece ao longo de sua obra, poderíamos considerar que a figura de um compositor, tenha dado uma certa cadência à composição das imagens.

Sala Bahia Amada Amado

As imagens da sala Bahia Amada Amado (feitas nos fins dos anos 50), são provenientes do livro de mesmo nome lançado com texto do escritor baiano Jorge Amado (Maureen constantemente vai buscar na literatura e poesia o fio condutor de sua arte). O impacto inicial das fotografias se dá no fato de serem preto e branco. Normalmente associamos à Bahia a idéia de um lugar colorido, de pessoas alegres. Retratada dessa forma, é uma chance de observarmos a camada por trás do estereótipo e identificar características de lá. Se por um lado existe a alegria da Festa do Senhor do Bonfim, há também o trabalhador na execução de seu ofício, e a forma de mostrar a lida com o mar, nos engana tamanha a beleza e suavidade que as imagens sugerem.

 Salas A Guimarães Rosa, O Vaqueiro e Sertões

 Em 1963 Maureen ganha um exemplar de Grande Sertão – Veredas autoria de João Guimarães Rosa. O seu fascínio pelo livro a levou a conhecer o próprio autor e ela o visitou inúmeras vezes. Desse trabalho, resultou o livro A João Guimarães Rosa. As fotos sugerem um cotidiano triste, onde não se percebe alegria. Até mesmo a cena de um casamento, não alivia as feições rudes, de pessoas agrestes.

 Concomitantemente aos registros feitos em Minas Gerais, no Nordeste, o universo sertanejo (imagens feitas entre 1967 e 1972) é retratado desde os vaqueiros do Ceará, com suas feições rígidas como barreiras, debaixo de pesadas roupas de couro, passando por outros sertões: Juazeiro do Norte, Canindé e Bom Jesus da Lagoa. Dessa vez, é Euclides da Cunha o escritor escolhido para traduzir em palavras o que é mostrado em imagens. E de certo modo, assim como o livro Os Sertões aborda a Guerra de Canudos, o vaqueiro é como guerreiro em postura grave. O que fica evidente nos retratos feitos por Maureen é o envelhecimento dos personagens, e podemos afirmar que não se trata apenas da idade, mas da própria vida de recursos escassos, da pobreza.

 Sala Xingu

 No Centro-Oeste do país, o Parque Indígena do Xingu, foi, entre os anos de 1973 e 1977, documentado por Maureen não apenas através de fotografias, mas também do filme por ela dirigido Xingu/Terra. Aqui, a crítica social em favor da cultura indígena, é fomentada pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas Bôas, sendo o primeiro, aquele que a convidou para fazer um trabalho semelhante ao que ela havia feito sobre Guimarães Rosa. Mas a concepção adotada para mostrar a problemática em torno da população indígena, não foi mostrar a degradação, mas sim a arte. É impossível dissociar da cultura indígena, seus vasos de barro, cocares, a própria pele pintada, os rituais e festividades. Nas imagens fotográficas, Maureen optou pela discrição dos olhares distantes e alheios, como se houvesse a intenção de não ter uma postura invasiva. Em momento algum, os índios demonstram perceber a existência de alguém que os registra.

 Sala Preta

 Foi em 1966 no MAM-SP a primeira exposição em que Maureen explorava a possibilidade de expressar a mulher negra de forma sensual, com apurado senso estético, sem uma abordagem que poderia diminuir a modelo retratada.

Em continuação a este trabalho, Maureen retratou outras expressões negras variando a intenção, mas denotando uma certa nudez, seja em formas discretamente sensuais de mulheres ou formas angelicais de crianças.

 Nota-se que as composições todas em preto e branco, tem forte a valorização da luz para imprimir contrastes vibrantes.

 Há ainda o registro de elementos da cultura africana como esculturas de madeira.

 Salas Japão, China, Bolivianos e África

Além das incursões na cultura e regionalismo brasileiros, Maureen, aventurou-se também em terras estrangeiras. No oriente, foi ao Japão e China. Assim que chegou ao Japão em 1987, o professor Lafcádio Hearn (nascido na Grécia e radicado na Japão) lhe disse “Não deixe de anotar suas primeiras impressões o mais rápido possível, pois elas são evanescentes e uma vez esmaecidas pelo tempo, nunca mais virão ao seu encontro”. E foi nos detalhes como as dobradiças de uma porta ou no sorriso discreto de uma moça com maquiagem branca e batom vermelho que começamos a perceber a estética que permeia esta cultura. Outro elemento que se destaca nas fotografias de Maureen sobre a cultura japonesa, é que há um constante clima de leveza e felicidade. Ainda que estejam em um trabalho braçal (como as cozinheiras) eles estão sempre sorrindo; ainda que debaixo de chuva quando posam para foto.

 Na China, onde estivera em 1982, percebe-se a diferença no comportamento das pessoas. Há um certo olhar reticente e sorrisos discretos, seja no casal jovem ou idosos. A busca pelos trabalhadores de classes operários se deu também nestes países e isto sugere que esta é uma forma que Maureen se vale para perceber a essência de um povo.

 Nos anos 80, Maureen visita também a Bolívia. Registra trabalhadores, suas roupas típicas com fortes tons de vermelho, e se por um lado a seriedade do cotidiano é impressa nas imagens, por outro, há festividade também.

 Ainda nas incursões estrangeiras, Maureen registrou a Costa do Marfim, no continente Africano retratando a moda, cultura e tradição deste país.

Mais informações sobre a exposição no Catraca Livre.

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